PF contesta EUA e rejeita enquadramento de PCC e CV como terrorismo

A Polícia Federal encaminhou ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) uma manifestação formal após a sinalização dos Estados Unidos de que pretendem classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A comunicação norte-americana teria sido feita ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. No documento enviado, assinado pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, a corporação adota posição contrária ao enquadramento das facções nesse tipo de classificação dentro da legislação brasileira. A PF argumenta que, embora não exista uma definição única e universal sobre terrorismo, há “relativo consenso internacional quanto aos elementos essenciais que caracterizam esse fenômeno”.

O que é terrorismo, segundo a PF – Na avaliação apresentada, o terrorismo está ligado a ações violentas praticadas por motivações políticas, ideológicas, religiosas, xenófobas ou discriminatórias, com o objetivo de provocar medo generalizado na sociedade, pressionar populações ou influenciar governos. A partir dessa distinção, o documento separa o conceito de terrorismo das atividades das facções criminosas. O texto afirma: “Em contrapartida, as organizações criminosas são grupos estruturados que se dedicam a atividades ilícitas com o objetivo primordial de obtenção de lucro”.

Facções atuam com lógica econômica –Segundo a PF, o funcionamento do PCC e do CV se encaixa nessa lógica econômica. Mesmo com estrutura complexa e uso recorrente de violência, essas organizações têm como foco principal a geração de lucro por meio de atividades como tráfico de drogas, armas e pessoas. Outro ponto abordado pela corporação é o uso da violência como critério de classificação. O documento sustenta que esse elemento, isoladamente, não é suficiente para caracterizar terrorismo. Nesse sentido, a PF registra: “Ao contrário, direcionam suas ações violentas principalmente contra adversários específicos, sejam eles forças policiais ou grupos criminosos rivais”.

PF reconhece risco à segurança pública – Apesar da distinção conceitual, a própria instituição reconhece a gravidade da atuação dessas organizações. O documento afirma que elas representam “risco severo à ordem pública e à segurança institucional”, exigindo ações permanentes e articuladas do Estado.

Alerta sobre impactos jurídicos – A PF também chama atenção para possíveis consequências jurídicas de uma eventual mudança de enquadramento. O alerta é de que a aplicação da Lei Antiterrorismo fora das condições previstas pode ferir o princípio da legalidade penal e gerar impactos em processos já em andamento, incluindo a possibilidade de anulação de provas. Além disso, o órgão reforça que uma eventual reclassificação não poderia ocorrer por interpretação, mas sim por alteração legislativa, já que hoje as facções são enquadradas na Lei de Organizações Criminosas (Lei nº 12.850/2013).

Estrutura e atuação das facções – O documento ainda detalha o nível de sofisticação dessas organizações, que operam de forma interestadual e internacional, utilizam empresas de fachada, movimentam recursos por estruturas financeiras complexas, incluindo criptomoedas, e mantêm cadeias hierárquicas de comando, muitas vezes a partir de dentro de presídios.

Combate ao crime organizado – No enfrentamento ao crime organizado, a PF cita a atuação das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficco) como modelo de ação coordenada. De acordo com os dados apresentados, somente em 2024 foram realizadas cerca de 180 operações, com aproximadamente 1,6 mil mandados de busca e apreensão cumpridos, cerca de 700 prisões e mais de R$ 300 milhões em bens e valores apreendidos.

Cooperação internacional – Ao final da manifestação, a corporação destaca que, mesmo com divergências conceituais sobre a classificação das facções, Brasil e Estados Unidos mantêm cooperação ativa no combate ao crime organizado.

A Tarde

 

EUA sinalizam ao Banco Central ofensiva financeira contra PCC e CV

O governo dos Estados Unidos enviou um comunicado estratégico ao presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, detalhando a ofensiva que pretende lançar contra as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).

Em reunião técnica, autoridades de Washington sinalizaram que o Departamento de Estado caminha para classificar ambos os grupos como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs). A medida ocorre a despeito da resistência diplomática da administração Lula, que prefere tratar o tema sob a ótica da segurança pública tradicional.

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CV só não está presente em 5 estados. Outras 30 facções operam no país

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) está em fase final de elaboração de um relatório que revela o poder e o alcance das facções criminosas no país. Dados preliminares apontam que o Brasil tem 31 facções criminosas com potencial de afetar a segurança de estados.

Três dessas organizações possuem atuação nacional: CV (Comando Vermelho), TCP (Terceiro Comando Puro) e PCC (Primeiro Comando da Capital). Esse último com presença confirmada também em 28 países.Segundo dados da Abin, a expansão do Comando Vermelho começou em 2013. Até então, a facção estava presente em apenas no Rio de Janeiro, onde surgiu, no Pará, Tocantins, Rondônia e Santa Catarina. Hoje, o CV só não está presente em cinco estados: Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo.

O crescimento se deu a partir das transferências de lideranças e a partir do avanço da facção paulista para outros países, abrindo espaço em territórios ocupados em outros estados. Segundo o mapeamento, que deve ser publicado no início de 2026, quando presos são levados para outros estados, eles buscam outras regiões para atuar, se organizar e voltar para o Rio de Janeiro.

Sem fronteiras
Outra facção organizada no Rio, o TCP, rival do CV, copiou modelo e já está presente em dez estados. No relatório, o Terceiro Comando Puro aparece ainda no Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Ceará, Amapá, Acre, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul.

O PCC, facção sediada em São Paulo, já atua fora do Brasil, com presença em 28 países, 17 a mais que em 2018. Além da expensão internacional, o número de integrantes dobrou e hoje são 2078 faccionados identificados. Os países com a maior quantidade de membros fazem fronteira com o Brasil: Paraguai, Venezuela, Bolívia e o Uruguai.

A Tarde