Artistas pernambucanos assinam alegorias do desfile da Grande Rio em homenagem ao Manguebeat

O maior carnaval em linha reta do mundo é de Pernambuco. Mas, megalomaníaco como só ele, segue se desenhando por outros cantos do país. Desde 1951, quando o frevo do Clube Vassourinhas inaugurou um jeito de festejar em Salvador, até os dias de hoje, com o Galo da Madrugada batendo as asas também em São Paulo. Agora, é o Rio de Janeiro que entra na rota. Na próxima terça-feira, às 22h, a escola de samba Acadêmicos da Grande Rio apresenta na Marquês da Sapucaí o enredo “A Nação do Mangue”, em homenagem ao movimento cultural pernambucano Manguebeat.

Para isso, a agremiação convidou quatro artistas visuais pernambucanos independentes, de diferentes áreas artísticas, para criar a identidade visual da alegoria. O ponto em comum é que todos dialogam com as expressões culturais do estado em seus trabalhos. “É muito massa ver que o pessoal da Grande Rio, enquanto pessoas do sudeste, tiveram profundidade e cuidado na pesquisa do tema. Saíram do superficial e procuraram abordar o tema com densidade”, celebra a muralista e ilustradora Carolina Noemia, que assina os trabalhos ao lado dos artistas Evêncio Vasconcelos e Tchôca, e do Coletivo Vacilante.

Nascida no bairro da Mustardinha, na Zona Oeste do Recife, Carolina mistura em suas telas e ilustrações referências à xilogravura, ao Maracatu Rural e ao manguebeat. “Não existe meu trabalho sem os estudos sagrados que Chico deixou em terra”, destaca a artista. Entre os personagens que habitam o trabalho de Carol, um deles vai ganhar a avenida: a Catita. Figura que dá início à celebração do Maracatu Rural, ela representa a mulher simples do povo, com seu jereré — rede de pesca de mariscos — onde guarda o dinheiro arrecadado.

A Tricolor de Caxias, como é conhecida a escola, desfilará dentro do Grupo Especial na próxima terça-feira com a proposta de aproximar às culturas que germinam nos diferentes mangues do Brasil. “Fazemos essa conexão entre os mangues de Caxias e os do Recife, porque, na verdade, a produção cultural aqui na Baixada Fluminense tem a mesma raiz identitária do Manguebeat. O samba e o Manguebeat nascem da mesma lama”, aponta Antônio Gonzaga, carnavalesco da Grande Rio que desenvolve o enredo ao lado do escritor Renato Lemos e do pesquisador Jader Moraes.

Carolina revela que só verá como sua arte ficou na alegoria no dia do desfile, ao mesmo tempo que o público. “É tão bonita essa magia, esse mistério que envolve o carnaval. Os desfiles, aquela expectativa de ‘só saber na hora’…, confesso que me deixa ansiosa. Mas é uma ansiedade boa, dessas que a curiosidade traz. Vai ser lindo. Terça-feira a gente descobre tudo e celebra”, afirma a artista.

Samba-enredo

Ailson Picanço, Marquinho Paloma, Davison Wendel, Xande Pieroni e Marcelo Moraes são os nomes por trás do samba-enredo. A letra que vai ecoar na Sapucaí exalta a resistência negra e periférica, a luta ambiental e social e a força transformadora do carnaval, com referências a Zumbi, Paulo Freire e, claro, Chico Science. “Freire, ensine um país analfabeto/ Que não entendeu o manifesto/ Da consciência social/ Chico! Manguebeat está na rua/ Caxias comprou a luta/ E transforma em carnaval”, diz um dos trechos.

Diario de Pernambuco

Nação Zumbi celebra 30 anos do Manguebeat no Festival Turá neste sábado

No início da década de 1990, um turbilhão de criatividade irrompeu nos mangues do Recife, impulsionado por jovens artistas que, nascidos da lama e do caos, resgataram a identidade pernambucana, antes adormecida. Trinta anos se passaram, e o Manguebeat, longe de ser um movimento do passado, reverbera em diferentes sonoridades e gerações. Neste sábado, às 21h15, no Festival Turá, a Nação Zumbi estreia o projeto MangueFonia em Pernambuco, ao lado de Lia de Itamaracá, Jéssica Caitano, Siba, Cannibal (Devotos) e Fábio Trummer (Banda Eddie), no Classic Hall, para celebrar a longevidade da iniciativa que ousou mudar os rumos da cultura pernambucana, nordestina e brasileira.

Em 1990, o instituto Population Crisis Committee classificou Recife como a quarta pior cidade para se viver no mundo, mergulhada em desigualdade e com sua cultura relegada a um estado de marginalização; Nesse cenário, um grupo de amigos questionava como romper a inércia que aprisionava a capital pernambucana. Como reanimar, libertar e revitalizar a cidade? A resposta veio em forma de um movimento: o Manguebeat. “Era uma reunião de pessoas em prol de chacoalhar a cidade com as veias obstruídas”, define Jorge Du Peixe, vocalista da Nação Zumbi e um dos remanescentes da antiga formação.

Atualmente, o texto “Caranguejos com Cérebro” de Fred Zero Quatro é visto pela sua aura poética, mas a origem é bem mais prosaica: inicialmente, era apenas material de divulgação para uma coletânea. A imprensa local, porém, interpretou como manifesto e acendeu a faísca que deu origem ao Movimento Manguebeat. Isso despertou uma nova consciência cultural em Pernambuco, refletida em produções audiovisuais como Baile Perfumado (1996), no humor irreverente de Jeison Wallace em Cinderela, a história que sua mãe não contou, e na moda regional do estilista Eduardo Ferreira.

A bordo de um ônibus, Chico Science compôs Da Lama ao Caos (1994) – um retrato cru da desigualdade recifense que, além de marcar a sonoridade do Manguebeat, influencia profundamente a música pernambucana e nacional até hoje. Para Du Peixe, manter a Nação Zumbi em atividade é uma forma de renovar seu legado. “Acho que o manifesto em si, vivo e latente, é o fato de continuarmos fazendo as coisas. Estamos em processo criativo, na feitura de um disco novo. A cada disco, isso se reacende. A cada lançamento, uma nova geração, que não conhecia nosso trabalho, fica curiosa e acaba revisitando toda a discografia desde o começo”.

Ao mesmo tempo, o vocalista demonstra preocupação com a apatia recifense frente ao predatismo que ameaça a identidade musical da cidade. “Recife sempre foi a capital do brega, mas você pode remover esse título, porque, de tempos em tempos, as coisas se transformam. No entanto, o que vejo são festivais surgindo e desaparecendo, produtores se lamentando, as coisas ficando cada vez mais difíceis, e a camarotização avançando violentamente, seja no Carnaval, seja em outras gestões que abafam a cultura local”, lamenta. Du Peixe celebra a nova geração que, em vez de se render à homogeneização, abraça a diversidade. “Tem gente fazendo coisas interessantíssimas em vários gêneros e subgêneros. Estamos ouvindo, porque somos influenciados por vocês, nos influenciamos no grito, na intenção, na atitude”.

Assim como influenciou a cena cultural, a Nação Zumbi também foi moldada por personalidades como Lia de Itamaracá, Rainha da Ciranda, uma das participantes do projeto MangueFonia – que é capitaneado pelos agentes da Afrociberdelia Jorge Du Peixe e Dengue. “Mesmo aos 80 anos, ela ainda consegue incendiar o palco, seja no Brasil ou além-mar. É uma honra para nós, mas também nos influenciamos mutuamente”, destaca o cantor. Além de Lia, outras figuras influentes e amigas, como Cannibal, Siba e Fábio Trummer, vão executar os clássicos que marcaram a história de seus grupos e apontar novas direções. “É por isso que existe o MangueFonia. Estamos todos juntos ali, trazendo nossa nossa perspectiva sonora nessa linha do tempo”, complementa.

Ao longo de três décadas, a Nação percorreu festivais pelo Brasil e pelo mundo, passando por diversas formações. A banda se reestruturou e se reinventou constantemente. Atualmente, Du Peixe e Dengue seguem em carreira solo com outros projetos em paralelo. “É legal se desprender da nave-mãe, que é a Nação Zumbi, dar um rolê e voltar com novas ideias para a criação de um novo disco”, explica o vocalista. Toca Organ, Matias e Da Lua (percussões e tambores da Nação Zumbi), Neilton (guitarra, Devotos) e Vicente Machado (bateria, Mombojó) completam a formação da banda no palco do Classic Hall.

Diário de Pernambuco