Caso Dark Horse: empresa ligada a filme tem sócio envolvido com o PCC

O empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, conhecido como “Escorpião do PCC” — apontado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) como integrante da facção criminosa —, é sócio da empresa subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) para um projeto de instalação de Wi-Fi na periferia de São Paulo. O ICB é presidido por Karina Ferreira da Gama, que também é sócia da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

As investigações conduzidas pela Polícia Civil paulista sobre o contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto apontam para um esquema de superfaturamento que chega a 230%. O acordo principal, orçado originalmente em R$ 108 milhões — com apurações indicando que as cifras totais podem atingir R$ 157 milhões —, previa a instalação de 5 mil pontos de internet sem fio (Wi-Fi) na capital paulista.

No entanto, a auditoria identificou uma discrepância severa nos valores: enquanto a estatal Prodam cobrava R$ 306 mensais por ponto de conexão, o ICB recebia uma taxa fixa de R$ 1.800 pelo mesmo serviço. Além das distorções de preço, a execução do contrato apresentou graves falhas e indícios de fraude. Das 5 mil antenas contratadas, a entidade instalou apenas 3,2 mil. Em um dos episódios mais críticos detalhados pelos investigadores, o município desembolsou R$ 2,7 milhões pela manutenção de 128 pontos de conexão, pagando por 12 meses de prestação de serviço que, na realidade, durou apenas dois meses. Segundo a polícia, o custo efetivo dessa operação deveria ter sido de somente R$ 273 mil.

O rastreamento do dinheiro revelou ainda que R$ 12 milhões do montante total do contrato foram repassados à empresa Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., de propriedade de Alex Leandro. Até dezembro de 2025, a empresa já havia recebido mais de R$ 3,8 milhões desse total. A principal hipótese com a qual a polícia trabalha é que parte dos recursos desviados dos cofres públicos paulistanos tenha sido direcionada para o financiamento e custeio da produção de Dark Horse.

Histórico criminal – Investigado no esquema de desvios, Alex Leandro possui um extenso histórico criminal que soma mais de 60 processos judiciais. Entre seus antecedentes constam três condenações por roubo e uma por extorsão mediante sequestro, crime que envolveu um sobrinho do político Eduardo Suplicy.

Devido a essas sentenças, ele cumpriu 13 anos de pena em regime fechado, período em que passou por penitenciárias de segurança máxima que abrigam a cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), como a unidade de Presidente Venceslau. A possível ligação com a organização criminosa também é reforçada por relatos de vizinhos, que gravaram um vídeo no qual Alex afirmava possuir o “escorpião do PCC”, expressão apontada pelas apurações como um provável código ou símbolo do grupo.

Atualmente, Alex Leandro cumpre prisão preventiva e é réu pelo crime de feminicídio. Ele é acusado do assassinato de sua companheira, Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos. O crime ocorreu em novembro de 2025, quando a jovem morreu após cair do 10º andar de um edifício residencial no bairro Vila Andrade, na Zona Sul de São Paulo. De acordo com as investigações, imagens capturadas pelo sistema de segurança do prédio mostram Alex Leandro agredindo e arrastando a vítima pelo pescoço momentos antes da queda que resultou na morte.

Blindagem – As apurações também revelaram indícios de manobras administrativas para omitir a participação de Alex Leandro no negócio e blindar a empresa após o crime. Nos primeiros contratos firmados com o ICB, o suspeito assinou os documentos utilizando apenas o primeiro nome, “Alex”, omitindo seu sobrenome, número de CPF ou RG.

Posteriormente, em dezembro de 2025, logo após a repercussão da denúncia do feminicídio, a empresa Favela Conectada passou por uma reformulação: mudou sua razão social para Urban Connect e teve seu controle transferido para o nome de Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que, segundo as investigações, reside no mesmo endereço de Alex. As partes envolvidas não haviam se manifestado até o fechamento desta reportagem.

Correio Braziliense

Bolsonaro pede que Michelle só se envolva na política após março e prega união da direita

O ex-presidente Jair Bolsonaro divulgou uma carta manuscrita, neste domingo (01/03), em que sai em defesa da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Bolsonaro afirma ter pedido a sua mulher que só envolva nas articulações políticas após março de 2026. No texto, tornado público por aliados do ex-presidente, ele também critica ataques vindos de setores da própria direita e faz um apelo por unidade entre aliados.

“Dirijo-me a todos que comungam conosco dos mesmos valores — Deus, pátria, família e liberdade — para dizer que lamento as críticas da própria direita dirigidas a alguns colegas e à minha esposa”, escreveu Bolsonaro. A menção ocorre em meio a disputas internas no campo conservador sobre a condução das estratégias eleitorais e a ocupação de espaços políticos, incluindo vagas ao Senado.

Na carta, o ex-presidente explica que a ex-primeira-dama estaria “por demais ocupada no atendimento da nossa filha Laura, recém-operada, bem como nos cuidados à minha pessoa”. A referência introduz um elemento pessoal no debate político, ao associar a decisão a questões familiares e de saúde. Bolsonaro também aborda o cenário eleitoral. “Numa campanha majoritária, bem como as cobiçadas vagas para o Senado, os apoios devem vir pelo diálogo e convencimento, nunca por pressões ou ataques entre aliados”, registrou. A declaração sugere incômodo com críticas públicas dentro do próprio campo político e sinaliza defesa de uma estratégia baseada na negociação interna.

Michelle Bolsonaro tem sido citada por aliados como possível candidata ao Senado pelo Distrito Federal em 2026, cenário que ganhou força após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro. Dentro do PL e do campo conservador, a definição das candidaturas ao Senado é estratégica e envolve disputa por espaço político e capital eleitoral. O texto termina com um agradecimento “pelo carinho e consideração” e com a frase: “Da nossa união o futuro do Brasil”. Ao reforçar a ideia de coesão, Bolsonaro procura reposicionar o debate no interior da direita, em um momento de rearranjos e disputas antecipadas para 2026, ao mesmo tempo em que preserva a imagem de Michelle como figura a ser mantida fora das tensões partidárias imediatas.

A manifestação ocorre num contexto de intensa especulação sobre a sucessão presidencial na direita brasileira a pouco mais de seis meses das eleições gerais de outubro de 2026. Com a condenação e prisão de Bolsonaro barrando a sua participação, o nome de Michelle tem sido tema de debate público e midiático como uma possível figura política relevante, tanto dentro do seu partido, o Partido Liberal (PL), quanto no conjunto da direita conservadora.Analistas destacam que a ex-primeira-dama consolidou nos últimos meses perfil de liderança entre certos setores — especialmente eleitores evangélicos e feminino — e foi cogitada como potencial candidata em pesquisas e cenários eleitorais, ainda que nem sempre com entusiasmo unânime no próprio PL.

Agência O Globo