Entre discurso e prática: feminicídio bate recordes enquanto governo executa apenas 15% dos recursos

Presidente Lula durante pronunciamento sobre o Dia Internacional da Mulher — Foto: Reprodução

No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou mensagem pública defendendo o fortalecimento das políticas de proteção às mulheres e reafirmando a necessidade de combater o feminicídio no Brasil. No pronunciamento, o presidente conclamou a sociedade e os governos a intensificarem ações para enfrentar a violência de gênero no país.

No entanto, os dados mais recentes revelam um cenário que caminha na direção oposta do discurso oficial.

Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.463 casos de feminicídio em 2023, um aumento de 1,6% em relação a 2022. Na prática, isso significa que uma mulher foi assassinada a cada seis horas no país em razão de sua condição de gênero. Foi o maior número registrado desde que a lei do feminicídio passou a vigorar, em 2015.

Os números continuaram elevados no ano seguinte. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 1.459 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, mantendo uma média alarmante de quatro mortes por dia. A taxa de feminicídios teve aumento de 0,7% em relação a 2023.

O quadro ficou ainda mais preocupante em 2025, quando o país registrou ao menos 1.470 feminicídios, o maior número em uma década. Os dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública mostram que 15 estados tiveram crescimento nos casos entre 2024 e 2025, com destaque para aumentos significativos nas regiões Norte e Nordeste.

Baixa execução de recursos

Outro ponto que chama atenção é a baixa aplicação de recursos destinados justamente ao enfrentamento desse tipo de crime.

O Plano de Ação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, lançado em março de 2024, previa cerca de R$ 1,4 bilhão em investimentos entre 2024 e 2025. No entanto, até agora apenas 14,7% dessa verba foi efetivamente utilizada.

Na prática, isso significa que mais de 80% dos recursos previstos para políticas de prevenção e combate ao feminicídio ainda não foram aplicados.

Discurso x prática

Diante desses números, especialistas e críticos apontam um contrassenso entre o discurso político e a efetividade das ações públicas. Enquanto o governo convoca a sociedade para enfrentar o feminicídio, os indicadores mostram crescimento nos casos e baixa execução de políticas de prevenção.

O combate à violência contra a mulher exige ações concretas, estrutura de proteção, investimentos efetivos e políticas públicas funcionando na ponta. Caso contrário, alertam analistas, as campanhas institucionais acabam se tornando apenas declarações simbólicas diante de uma realidade cada vez mais preocupante no país.

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