Brasil e Reino Unido oficializam parceria para prevenir tráfico humano

Os governos do Brasil e do Reino Unido assinaram, em novembro de 2025, um memorando de entendimento para fortalecer o enfrentamento ao tráfico de pessoas e ao contrabando de migrantes. O documento foi publicado no Diário Oficial da União desta sexta-feira (2). Ele prevê que sejam estabelecidos mecanismos de prevenção, assistência, proteção das vítimas, investigação e punição, com respeito aos direitos humanos e em conformidade com as legislações nacionais dos dois países

O documento estabelece que tráfico de pessoas é o crime de recrutamento, transporte, transferência, privação de liberdade, abrigo ou acolhimento de pessoas, por meio de ameaça, rapto, fraude, abuso de poder ou de uma situação de vulnerabilidade, ou mediante pagamento com o propósito de exploração. Já o migrante contrabandeado é qualquer pessoa que tenha cruzado irregularmente uma fronteira nacional com o apoio de contrabandistas e em violação às regras migratórias dos países de origem, trânsito ou destino.

O acordo tem validade inicial de cinco anos, podendo ser renovado automaticamente por igual período ou mesmo cancelado por qualquer uma das partes, com um aviso prévio de 60 dias. O texto esclarece que trata-se de um instrumento de cooperação política e técnica e não é juridicamente vinculante. Ou seja, não cria obrigações legais obrigatórias nem punições em tribunais internacionais em caso de descumprimento. Os governos buscaram a cooperação a partir da preocupação, de ambas as partes, com o impacto do tráfico de pessoas e do contrabando de migrantes, especialmente contra mulheres, crianças e adolescentes.

Frentes de ação

O acordo prevê as seguintes frentes de ação:

  • aprimoramento das instituições: tornar os órgãos do governo (polícia, ministérios, etc.) mais preparados e estruturados para lidar com esses crimes.
  • campanhas educativas: criar alertas e materiais informativos para o público, usando exemplos que funcionaram bem em ambos os países.
  • treinamento de servidores: realizar cursos e programas de capacitação para que os funcionários públicos entendam melhor as leis e como agir nesses casos.
  • cuidado com a vítima: trocar ideias sobre como melhor acolher e proteger quem foi vítima desses crimes.
  • acesso rápido à Justiça: facilitar o caminho jurídico para as vítimas, garantindo agilidade e evitando que elas sofram novamente ao lidar com a burocracia.
  • manual de experiências: organizar e compartilhar o que os dois países aprenderam sobre como prevenir, investigar e punir esses criminosos.
  • inteligência policial: compartilhar dados e provas de forma rápida para ajudar em investigações em curso, respeitando as leis de cada país.
  • operações em fronteiras: planejar ações policiais conjuntas para fechar rotas clandestinas e prender os responsáveis pelo tráfico e contrabando.
  • dados de imigração: trocar informações técnicas entre as autoridades de migração para monitorar o fluxo de viajantes suspeitos.

Destaques
O memorando enfatiza a proteção especialmente de mulheres, crianças e adolescentes, reconhecendo que são os grupos mais afetados por esses crimes. O texto prevê a repatriação voluntária. Com isso, a volta da vítima ao seu país de origem deve ser voluntária e segura, sempre priorizando o interesse da pessoa e os direitos humanos.

Sobre o direito à proteção da identidade das vítimas, o documento garante que a troca de informações respeite as leis de privacidade de ambos os países. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e, no Reino Unido, a UK GDPR. O acordo não prevê transferência de recursos financeiros entre os países. Cada governo deverá dispor de seu próprio orçamento e funcionários para realizar as atividades.

Denúncias
No Brasil, os canais oficiais para fazer denúncias relacionadas ao tráfico de pessoas são o Disque 100, vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), e o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher).

A Tarde

 

TRÁFICO DE PESSOAS: Com mais de 100 denúncias de tráfico humano em Pernambuco, MPT lança campanha

Atraídas por boas propostas de emprego e melhores condições de vida, mais de 100 pessoas teriam sido vítimas de tráfico humano em Pernambuco nos últimos anos. É o que aponta o levantamento do Disque 100 divulgado, nesta terça-feira (29), pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Cerca de 62% das denúncias são de trabalho escravo, mas há também casos de vítimas de exploração sexual e até de adoção ilegal.

Os números mais atualizados são referentes às denúncias registradas entre os anos de 2012 e 2019. Outra informação chama a atenção: a maior parte (38%) são de vítimas aliciadas nos municípios do Recife e do Jaboatão dos Guararapes. O número de crianças e adolescentes que teriam sido vítimas de tráfico humano no Estado é ainda maior. Foram registradas 177 denúncias entre 2012 e 2019. Desse total, 75% apontaram para o trabalho escravo e 25% para a exploração sexual e comercial.

“Quando pensamos em tráfico de pessoas, logo vem à cabeça a ideia de pessoas sendo levadas para outros países, em um avião, para exploração sexual ou remoção de órgãos. Ocorrências como essas existem, mas não podemos esquecer que há casos intermunicipais e interestaduais. O tráfico de pessoas está mais próximo do que pensamos”, afirmou a procuradora do Trabalho e coordenadora regional de combate a erradicação do trabalho escravo e enfrentamento ao tráfico de pessoas (Conaete), Débora Tito.

Campanha contra o tráfico humano em Pernambuco

Diante do alto número de denúncias, o MPT em Pernambuco, em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, a Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal e o Grande Recife Consórcio de Transporte, está lançando uma campanha estadual de combate ao tráfico de pessoas. A iniciativa chama atenção da sociedade para casos próximos, que podem ocorrer entre os municípios e nas áreas limítrofes do Estado.

Na primeira fase da campanha, cartazes informativos serão distribuídos nos 66 terminais de transporte intermunicipal do estado e nos 2.316 veículos da frota de ônibus que circulam na Região Metropolitana do Recife.

As peças lembram a importância de estar atentos a propostas de trabalho tentadoras; alertam que casos de tráfico de pessoas não sugerem tratar-se de um crime à primeira vista; e advertem sobre a importância de tomar todos os cuidados necessários ao viajar para assumir uma proposta de emprego em outra cidade.

“Qualquer sinal estranho, que possa configurar uma relação abusiva, precisa ser informado imediatamente às autoridades. A sociedade precisa estar ciente de que o tráfico de pessoas existe e esta ação criminosa está mais próxima do que imaginamos”, declarou o secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Tomé Franca.

Como denunciar o tráfico humano

“A denúncia, muitas vezes, é o ponto de partida para que as instituições competentes desenvolvam o seu trabalho e realizem o resgate de vítimas do tráfico de pessoas. Toda a sociedade deve estar atenta. Combater esse crime deve ser um esforço de todos”, disse Débora Tito.

Denúncias podem ser feitas ao Disque Direitos Humanos (Disque 100) ou também à Polícia Federal. Pessoas que tenham sido abordadas com propostas de sair do Estado, ou que saibam de abordagens parecidas, por exemplo, podem entrar em contato pelo número: (81) 9.9603.0384 ou pelo e-mail: [email protected].

Fonte: JC Online