
Desde 2012, pesquisadores têm observado o potencial do extrato da canabis para tratamentos neurológicos e psicológicos
Moradores do arquipélago de Fernando de Noronha que convivem com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) contam com uma iniciativa de suporte contínuo na ilha. O Projeto Noronha, desenvolvido pela Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed) em parceria com a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e a Administração Distrital, viabiliza o acesso a tratamentos integrativos com o uso do canabidiol (CBD).
O programa atende a demandas como a da professora Rayane Dixie dos Santos, de 31 anos, que enfrentava dificuldades devido às crises de agitação do filho neurodivergente e acabou desenvolvendo ansiedade generalizada em decorrência da sobrecarga do cuidado solo. Há três meses, o menor iniciou o uso do CBD e apresentou melhora no comportamento.
Entre fevereiro e maio deste ano, a ação promoveu dois mutirões de saúde na ilha, que resultaram em 126 consultas médicas gratuitas e na distribuição de 221 frascos de óleo de canabidiol. A iniciativa planeja agora a estruturação de uma sede permanente em um terreno cedido pela administração local.
“A maioria dos mutirões de saúde no Brasil ocorre de forma isolada. Em Noronha, estamos ajudando a estruturar uma rede permanente de suporte, com retornos previstos a cada três meses”, explica Alexandre Assis, diretor da Abecmed.
Um dos pilares do projeto é o atendimento psicológico e médico direcionado às mães, frequentemente sobrecarregadas com os cuidados integrais dos filhos. Rebeca Allen, presidente da associação de mães da ilha, relata que desenvolveu depressão e transtorno de ansiedade antes de ser incluída no programa. Após iniciar o tratamento com o CBD em fevereiro, ela registrou melhora no padrão do sono e na rotina. Seu filho, de sete anos, também passou a utilizar o composto, apresentando respostas positivas na escola e nas terapias.
O projeto justifica-se pelo contexto geográfico de Fernando de Noronha. A ilha dispõe apenas do Hospital São Lucas, unidade voltada para atendimentos de média complexidade. Casos mais complexos exigem deslocamento até o continente, em Recife, localizada a 545 quilômetros de distância. Esse isolamento geográfico e as barreiras de acesso à saúde especializada têm reflexos nos índices locais de ansiedade, depressão e insônia.
Segundo dados do relatório de impacto do segundo mutirão, realizado em maio, 70,6% dos pacientes atendidos buscaram suporte para queixas de saúde mental. Casos envolvendo neurodivergências somaram 41,3%, seguidos por distúrbios do sono (32%), dores crônicas (29,6%) e condições neurológicas (6,8%). Entre as crianças atendidas, os diagnósticos mais recorrentes foram de TEA e TDAH.
O uso de fitocanabinoides em tratamentos neurológicos e psiquiátricos é objeto de estudos científicos crescentes desde 2012. Conforme explica o neurologista Eduardo de Sá Faveret, voluntário do projeto, o canabidiol atua como modulador do sistema endocanabinoide, responsável por regular funções como o sono e a sensibilidade a estímulos externos (luz, ruídos e toque), ajudando a reduzir a hipersensibilidade comum no espectro autista.
De acordo com o psiquiatra Wilson Lessa Junior, também voluntário da ação, um dos diferenciais do CBD em relação a outras abordagens farmacológicas tradicionais é a ausência de efeitos sedativos severos. A redução da agitação sem indução ao sono profundo preserva o estado de alerta dos pacientes, permitindo melhor aproveitamento nas terapias multidisciplinares complementares, como psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional.



