
Quem mais, Ragner ainda hoje se pega pensando, sairia de casa na garupa de uma moto por aplicativo para assaltar sozinho uma casa lotérica com uma arma de brinquedo? Uma enorme tolice, reconhece o jovem de 26 anos, que o conduziu a sete tortuosos meses no sistema prisional, onde ele paradoxalmente recebeu a primeira oportunidade de emprego. Essa é uma parte do storytelling (estratégia de marketing para contar a história de uma empresa) da Use Skate, a marca de semijoias para skatistas em que o agora reeducando Ragner Silva pretende empreender para recomeçar a vida.
Acompanhado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) há quase um ano, ele tem transformado o sonho de viver do skate em modelo de negócio. “Sempre pensei nisso: no Brasil só existe marca de joias para skatistas com ouro e prata. Que skatista tem dinheiro pra isso? Quando fui preso, foi a maior frustração da minha vida pensar que não faria mais isso”, reflete.
Ragner lembra dos primeiros dias no Centro de Observação e Triagem (Cotel), no Grande Recife, quando tenta explicar para si mesmo o crime que tentou cometer. “Eu lia muito na cadeia. Em ‘Sonho de uma Noite de Verão’, de Shakespeare, ele fala que quem muito ama e se sente desprezado é capaz de fazer qualquer coisa para chamar a atenção, por mais estranho que pareça”, continua.
