Egressos do sistema prisional apostam em empreendedorismo para recomeçar a vida

Quem mais, Ragner ainda hoje se pega pensando, sairia de casa na garupa de uma moto por aplicativo para assaltar sozinho uma casa lotérica com uma arma de brinquedo? Uma enorme tolice, reconhece o jovem de 26 anos, que o conduziu a sete tortuosos meses no sistema prisional, onde ele paradoxalmente recebeu a primeira oportunidade de emprego. Essa é uma parte do storytelling (estratégia de marketing para contar a história de uma empresa) da Use Skate, a marca de semijoias para skatistas em que o agora reeducando Ragner Silva pretende empreender para recomeçar a vida.

Acompanhado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) há quase um ano, ele tem transformado o sonho de viver do skate em modelo de negócio. “Sempre pensei nisso: no Brasil só existe marca de joias para skatistas com ouro e prata. Que skatista tem dinheiro pra isso? Quando fui preso, foi a maior frustração da minha vida pensar que não faria mais isso”, reflete.

Ragner lembra dos primeiros dias no Centro de Observação e Triagem (Cotel), no Grande Recife, quando tenta explicar para si mesmo o crime que tentou cometer. “Eu lia muito na cadeia. Em ‘Sonho de uma Noite de Verão’, de Shakespeare, ele fala que quem muito ama e se sente desprezado é capaz de fazer qualquer coisa para chamar a atenção, por mais estranho que pareça”, continua.

Morador da comunidade da Burra Nua, em Olinda, ele conta que uma desilusão amorosa foi determinante para o estado emocional em que se encontrava quando decidiu assaltar a casa lotérica, em dezembro de 2022. “Fui pagar uma conta, faltaram cinquenta centavos e o cara não aceitou. Eu pensei: vou roubar a lotérica desse cara”, conta Ragner, que nunca tinha cometido qualquer crime.

Detido pela Polícia Civil sozinho no local, ele confessou o crime na tentativa de reduzir a pena. Passou pelo Cotel, pelo Presídio de Igarassu e pela Penitenciária Agroindustrial São João (PAISJ) antes de progredir para o regime aberto. “Eu passei a ler muito na cadeia. Quando minha mãe ia trazer comida para mim, como tem limite de peso, pedia pra ela tirar alimento e colocar livros”, conta.

Também foi no sistema prisional que ele teve as primeiras oportunidades de formação profissional. “Tudo que aparecia de oportunidade na cadeia, eu agarrei. Fiz curso de encanador e saí com o diploma. Agora, eu trabalho diariamente na Emlurb [Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana], cuidando de uma praça”, diz.

Com o que ganha no novo trabalho, articulado por meio do Patronato Penitenciário de Pernambuco, Ragner tem investido no material experimental da Use Skate. Em seu pequeno quarto, na casa em que mora com o pai, o jovem elabora as semijoias em um computador e envia as ideias para um designer. Alguns protótipos já foram impressos e se encontram em pequenas caixas aveludadas, que carregam a marca da Use Skate.

Além de brincos e pulseiras, já foram produzidos panfletos, botons e camisas. Para divulgar a futura empresa, ele também já providenciou um estêncil, sobre o qual alguns cliques de spray, revelarão nas paredes da cidade a marca da Use Skate.

“Eu levei essa ideia pela primeira vez para o Banco do Brasil, porque não sabia quem poderia me ajudar e vi que eles patrocinavam skatistas, como Raíssa Leal. A gerente disse que não funcionava assim para investir na minha empresa, mas me falou das palestras do Sebrae”, conta Ragner.

O reeducando passou a frequentar as aulas abertas da instituição em busca de quaisquer informações que pudessem ajudá-lo a estruturar o próprio negócio. “Eu sou da favela e achava que só ia gente burguesa pra essas coisas, mas comecei a me inscrever em tudo que era palestra, mano. De inteligência artificial a marketing. Estava procurando alguém pra conversar, porque ninguém que eu conheço falava sobre empreendedorismo”, conta.

Empolgado com as lições, Ragner já pensa em incorporar ao futuro negócio o projeto social que tem desenvolvido com as crianças da comunidade de Chão de Estrelas, em Olinda, onde ele costumava andar de skate antes da prisão. “Eu via as crianças usando drogas e entrando no crime e decidi ensinar a galera a andar de skate. Quando chego do trabalho, duas vezes por semana, vou dar as aulas”, conta.

Com o salário que tem recebido, ele custeia sozinho os lanches e materiais para as aulas. “Quando saí da cadeia, vi que poderia ter perdido tudo sem deixar nada no mundo. Minha ideia, é o projeto social fazer parte da Use Skate. Quero ganhar dinheiro para transformar minha comunidade”, conclui.

Serviço: Dez dicas do Sebrae para seu primeiro negócio:

1. Entenda o que é ser empresário antes de começar

Um dos maiores erros de quem tenta empreender é abrir um negócio apenas porque viu alguém ganhar dinheiro naquela área. Antes de investir, é importante conhecer o funcionamento da atividade, entender os desafios e avaliar se a pessoa realmente domina o serviço ou produto que pretende oferecer.

2. Procure capacitação gratuita

O Sebrae oferece cursos, palestras e orientações para quem quer começar do zero. Entre os temas abordados estão organização financeira, formação de preço, marketing digital, atendimento ao cliente e planejamento do negócio. A orientação é que o empreendedor busque informação antes de investir dinheiro.

3. Comece com uma habilidade que você já possui

Para o especialista em gestão empresarial, muitas pessoas conseguem iniciar um pequeno negócio usando conhecimentos que já possuem, como cozinhar, fazer bolos, consertar carros, trabalhar com artesanato ou prestar pequenos serviços. A recomendação é aproveitar competências já desenvolvidas para reduzir custos e ganhar experiência.

4. Dá para começar com pouco dinheiro

Nem sempre é necessário ter um grande investimento inicial. O consultor cita exemplos de pessoas que começam oferecendo serviços em domicílio, usando ferramentas simples ou equipamentos que já têm em casa. A ideia é crescer aos poucos, reinvestindo parte do dinheiro ganho no próprio negócio.

5. Aprenda a calcular o preço corretamente

Um dos principais problemas enfrentados por pequenos empreendedores é definir preços sem calcular custos reais. Paixão alerta que copiar o valor cobrado por concorrentes pode gerar prejuízo. É preciso considerar gastos com matéria-prima, transporte, contas, equipamentos e tempo de trabalho.

6. Organize o controle financeiro

Outra dificuldade comum é confundir o dinheiro que entra no caixa com lucro. Segundo o Sebrae, o empreendedor precisa entender que parte do valor recebido será usada para pagar fornecedores, contas futuras e despesas do próprio negócio. A orientação é manter a organização financeira desde o início.

7. Conheça o cliente que você quer atingir

Antes de vender, é importante entender quem será o público consumidor. O tipo de produto, o preço e até a divulgação mudam de acordo com o perfil dos clientes. Paixão cita como exemplo a venda de bolos: é necessário saber se o público busca produtos simples, sofisticados ou voltados para ocasiões específicas.

8. Use as redes sociais para divulgar o negócio

Instagram e Facebook aparecem como ferramentas importantes para pequenos empreendedores. Mesmo sem investir muito dinheiro, é possível divulgar produtos, conquistar clientes e ampliar a rede de contatos usando as redes sociais.

9. O MEI pode facilitar a formalização

O cadastro como Microempreendedor Individual (MEI) é apontado como uma alternativa acessível para quem está começando. Segundo o consultor, a formalização é feita pela internet e não exige apresentação de antecedentes criminais. Com o MEI, o empreendedor pode emitir nota fiscal, contribuir para o INSS e trabalhar de forma regularizada.

10. Procure ajuda especializada

Pessoas interessadas em abrir um negócio podem procurar o Sebrae gratuitamente por meio do telefone 0800 570 0800 ou nas unidades presenciais da instituição. O atendimento inclui orientações individuais e acesso a capacitações gratuitas.

Diário de Pernambuco

Deixe um comentário