
Desde o momento em que foi anunciada, a medida popularmente apelidada de “taxa da blusinha” — que impôs uma alíquota de 60% de imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50 — já mostrava que poderia provocar estragos para o comércio eletrônico e, especialmente, para os Correios. Hoje vemos que ela não foi apenas um “incômodo tributário” — foi um dos fatores que empurraram a estatal para o maior rombo financeiro da sua história recente.
A “taxa da blusinha” e o colapso do segmento internacional
Plataformas como Shopee, Temu, AliExpress e a brasileira Achei vinham sendo responsáveis por volume expressivo de encomendas internacionais entregues pelos Correios. A fluidez dessas remessas alimentava o caixa da estatal — em muitos municípios do Brasil interior, esse tipo de encomenda era parte considerável da demanda logística.
Com a taxação de 60 % sobre pequenos pedidos importados, o efeito foi imediato:
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Os produtos ficaram mais caros para o consumidor, em muitos casos inviabilizando a compra ou tornando inviável o frete + tributo.
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Muitos consumidores reduziram ou suspenderam suas compras no exterior por conta da alta carga tributária.
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O volume de encomendas internacionais despencou, reduzindo drasticamente uma das principais fontes de receita dos Correios.
Este impacto não é mera especulação: na divulgação oficial do balanço, a estatal afirma que “entre os principais motivos [do prejuízo] destaca-se a retração significativa do segmento internacional, em razão de alterações regulatórias relevantes nas compras de produtos importados, que provocaram a queda do volume de postagens e o aumento da concorrência, resultando na redução das receitas vinculadas a esse segmento.”
Segundo reportagens, o impacto dessa retração na receita dos Correios gira em torno de R$ 2,2 bilhões (ou valor equivalente) atribuídos apenas à perda do fluxo internacional de encomendas.
Ou seja: foi um tiro no pé.
O prejuízo bilionário que virou inevitável
No primeiro semestre de 2025, os Correios registraram um prejuízo de R$ 4,3 bilhões, mais que o triplo do déficit do mesmo período em 2024 (R$ 1,35 bilhão).
A estatal aponta que houve queda nas receitas líquidas — de R$ 9,283 bilhões para R$ 8,185 bilhões — e aumento acentuado das despesas gerais e administrativas, que saltaram de cerca de R$ 1,959 bilhão para R$ 3,414 bilhões no mesmo comparativo semestral.
Além disso, os custos com pessoal e obrigações trabalhistas já pressionavam o caixa há anos. Em 2025, esses encargos ficaram insustentáveis frente à queda de receita.
Para proteger o colapso iminente, o governo agora articula um empréstimo de R$ 20 bilhões para os Correios — metade em 2025 e a outra metade em 2026 — sob a garantia do Tesouro Nacional.
Parlamentares da oposição protestam com veemência, chamando a operação de “golpe na responsabilidade fiscal” e alertando que a dívida será paga pelos brasileiros. nda de imóveis ociosos, renegociação de contratos e reorganização interna.
Por que essa medida foi autodestrutiva
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Desconhecimento operacional
Tributar importações pequenas — que abasteciam um mercado de consumo popular — mostra a desconexão entre política e realidade logística. Não houve compensação via estímulos ou medidas que amortecessem o impacto. -
Falha de visão estratégica
O governo simplesmente cortou uma fonte de receita estruturante para os Correios sem preparar alternativas robustas. -
Aumento da dependência estatal e da intervenção fiscal
Para “remendar” o prejuízo, agora há necessidade de injetar bilhões públicos, elevando a exigência de contrapartidas e ajustes internos. -
Fragilização perante a concorrência privada
Com a queda de receitas, os Correios perdem competitividade frente a empresas privadas de logística, que já vinham ganhando espaço. -
Reflexo nos serviços à população
Para segurar caixa, a empresa promete cortes operacionais, o que pode levar à piora nos prazos, fechamento de agências pequenas e perda da capilaridade que sempre foi seu diferencial.
Conclusão
A “taxa da blusinha” será lembrada como um dos erros de política econômica mais danosos do governo Lula neste início de segundo mandato. Não foi apenas uma medida tributária — foi a gota que faltava para afundar ainda mais os Correios.
O rombo de R$ 4,3 bilhões no primeiro semestre é o sintoma, não a causa. A verdadeira causa está na combinação entre má gestão, receitas em queda e decisões políticas que penalizam o volume que mantinha a estatal viva. Agora, o caminho é difícil: socorro financeiro, ajustes internos, cortes dolorosos — mas sem uma mudança de estratégia maior, o risco é que o “remendo” financeiro se torne outro rombo no orçamento nacional.



