Sem assistência, mulher que foi resgatada de trabalho escravo pede para voltar à casa dos patrões no Recife

Mulher tinha pés com muitos calos. Ela fazia o mesmo trajeto de 1,2 km várias vezes ao dia. (Foto: Reprodução)

Na manhã do último 10 de maio, Inês*, de 54 anos, estava de novo diante daquela casa de muro e fachada todos revestidos de pequenos azulejos de cerâmica. Não foi falta de aviso. Em 28 de abril, ela esteve no Ministério Público do Trabalho (MPT), no Recife, para dizer que queria voltar ao convívio dos antigos empregadores.

Durante aquela visita ao MPT, relatou não estar sendo acompanhada pelo poder público estadual ou municipal, apesar das promessas ouvidas quando foi resgatada em situação de trabalho escravo doméstico naquela mesma casa que agora ela voltava a bater à porta.

O resgate de Inês ocorreu em 7 de novembro de 2025 no bairro de Porto da Madeira, Zona Norte do Recife. Na inspeção, o Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM) constatou “gravíssimas violações de direitos fundamentais”, entre elas ausência de pagamento de salários, jornada exaustiva, restrição de liberdade, tratamento discriminatório, violência física e moral e exploração de trabalhadora analfabeta em situação de hipervulnerabilidade social.

O GEFM identificou que Inês trabalhava para quatro pessoas, sendo uma mulher e seus três filhos. A Polícia Federal (PF) instaurou inquérito e poderá indiciá-los pelo crime de reduzir alguém à condição análoga à de escravo.

Omissão

A visita de Inês ao MPT resultou em um relatório intitulado “Da omissão das redes estadual e municipal de assistência social no pós-resgate de trabalhadora submetida a trabalho análogo ao de escravo doméstico no Recife/PE”, assinado pela auditora-fiscal do Trabalho Maria Neuzeli Arantes de Oliveira, que também participou do resgate.

A auditora-fiscal resume no texto que o desejo de retornar aos empregadores se devia a um “profundo abandono social, institucional e afetivo a que a trabalhadora foi submetida após o resgate, revelando falha sistêmica e continuada das políticas públicas que deveriam assegurar sua proteção integral”.

Inês declarou na ocasião que, após a primeira e única visita da assistência social, em 12 de novembro de 2025, ainda durante o período da operação de fiscalização, não recebeu qualquer acompanhamento, atendimento continuado ou apoio por parte da rede pública.

Ela afirma que foram prometidos à época do resgate acompanhamento pela assistência social, atendimento médico e odontológico e fornecimento regular de cesta básica. “Contudo, nenhuma dessas promessas foi cumprida, caracterizando evidente quebra de confiança institucional e abandono posterior ao resgate”, conclui Neuzeli no relatório.

A trabalhadora também disse não receber apoio efetivo ou material de sua família biológica, sentindo-se “sozinha, abandonada e desamparada”. No documento, a auditora-fiscal conclui que havia risco concreto de retorno ao ciclo de exploração. Ela pediu ainda assistência ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, não recebendo retorno.

Em nota, o MPT também afirma entender que a situação demonstra “que, aparentemente, houve falha no atendimento socioassistencial, o qual precisa ser integral e continuado, diante do alto grau de vulnerabilidade social e econômica da trabalhadora”.

O advogado da empregadora nega que Inês esteja na casa de sua cliente, apesar de confirmar que ela esteve no local pedindo para voltar. “Se ela recebesse essa pessoa, poderia incorrer em um risco de futuramente ser sancionada, porque o caso ainda permanece em discussão na Justiça”, argumenta. Um irmão da trabalhadora, entretanto, garante que a viu na residência na última sexta-feira (22).

Início

Inês começou a trabalhar naquela casa em 1989, quando tinha 16 anos, passando a realizar serviços domésticos em jornadas exaustivas e sem receber salário.

Ela tinha dez irmãos e vivia em “situação de fome”, indica o relatório. Cresceu vendo o pai, que era pescador, bater na sua mãe, dona de casa.

Era naquele cenário de grande vulnerabilidade que se encontrava quando a empregadora prometeu pagá-la pela prestação de serviços domésticos, o que parecia uma oportunidade única de quebrar o ciclo que vivia.

Os pagamentos até teriam ocorrido de início. Inês não lembra a data exata, mas diz que o repasse parou quando a moeda padrão do país ainda era o Cruzeiro, tendo, assim, que trabalhar somente pela comida.

Questionada durante o resgate sobre não pagar salário, a empregadora respondeu que “quando deixou de receber o salário, a senhora Inês não se preocupou e nem pediu para voltar a receber”. Já um dos filhos da patroa, que também responde pelo caso, comentou que “sua mãe compra tudo que a senhora Inês precisa; que a senhora Inês não precisa de dinheiro porque ela já recebe tudo da sua mãe”.

Rotina

A empregada doméstica começava a trabalhar às 6h30 e terminava após servir o lanche noturno da patroa, que costumava ocorrer entre 23h30 e meia-noite. Como nunca teve direito a um celular, dormia com o rádio ligado, para acompanhar o anúncio das horas e não se atrasar.

Ao longo do dia, Inês ia até o comércio de Beberibe, na Zona Norte, pelo menos cinco vezes, em um trajeto de aproximadamente 1,2 km. Duas dessas viagens, de manhã e à tarde, eram para atender à exigência da empregadora de consumir pães quentes.

“A empregadora impunha, ainda, uma rotina exaustiva: a vítima devia, primeiro, ir ao comércio para fazer o orçamento das compras, retornar à residência e, só então, voltar ao local com o dinheiro para pagar os produtos”, diz o relatório de fiscalização. A funcionária tinha muitos calos nos pés, o que os auditores acreditam ter relação com essas peregrinações.

Inês chegou a ser cadastrada no auxílio emergencial durante a pandemia de Covid-19. O valor, entretanto, era repartido entre a família da patroa. “[A empregadora] era muito malvada com Inês. Não pagava salário e ainda ficava com o auxílio emergencial”, declarou uma comerciante ouvida pela fiscalização, que conheceu a empregada a partir das caminhadas diárias que ela fazia na região.

“Como deixaram Inês voltar para uma casa dessa? É um crime deixá-la voltar”, comenta. “Se ela voltou não foi porque quis. Foi por conta de um prato de comida. Ela é uma menina muito sofrida”.

Diário de Pernambuco

Deixe um comentário