Com a aprovação brasileira da combinação de imunoterapias que reduz em até 83% a progressão do mieloma múltiplo, um raro e incurável câncer no sangue, a acessibilidade dos tratamentos da doença entra em pauta. Entre 2014 e 2024, Pernambuco contabilizou 1.190 casos, o que representa 15% dos registros do Nordeste no período, segundo o DataSUS. Nesse contexto, a disparidade entre SUS e rede privada é um dos principais desafios.
O tema foi um dos debatidos na 1° edição do Programa Educacional Conjunto sobre Mieloma Múltiplo (Joint Educational Program on Multiple Myeloma), inédito encontro dedicado à discussão sobre a doença no Brasil.
O evento, que teve início na sexta-feira (24) e segue neste sábado (25), promove atualização científica, discussão de avanços recentes e troca de experiências entre especialistas da área. O Diario de Pernambuco esteve presente a convite da Johnson & Johnson.
Desafios – A doença afeta células de defesa do corpo, chamadas plasmócitos, causando reprodução descontrolada e atuação irregular. A maioria dos casos atinge pessoas de idade avançada. Os sintomas são dores e fraturas ósseas, anemia, fadiga, problemas renais e infecções frequentes.Em Pernambuco, a travessia até a confirmação da doença enfrenta um caminho acidentado. O Diario conversou com o hematologista Marinus Lima, professor da Universidade de Pernambuco (UPE) e médico assistente no estado, que falou sobre o panorama da doença no estado.
“Todo paciente enfrenta um itinerário até o diagnóstico, e esse caminho infelizmente tem vieses conforme a trilha percorrida. No SUS, a jornada começa na atenção primária, passa por uma UPA ou emergência e esbarra na falta de leitos de investigação. No Hospital do Câncer, frequentemente recebemos pacientes com a doença em estágio avançado devido a esse atraso”, explicou Lima, ponderando que, na rede privada, a detecção encurtada permite flagrar a doença antes das complicações.
Aspectos financeiros e burocráticos – O Diario também conversou com o especialista em mieloma múltiplo Edvan Crusoé, professor da pós-graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que analisou a discrepância financeira entre os serviços públicos e privados no Nordeste.“É muito importante discutirmos a regionalização, pois o Brasil tem dimensões continentais e muitas vezes parece que as coisas acontecem apenas no Sul e Sudeste. No Nordeste, temos polos de excelência em desenvolvimento, como Salvador, Recife, Fortaleza e Natal. Mas o tratamento do mieloma não é só uma questão regional, mas sim da diferença entre o sistema público e o privado”, comentou o especialista.
Segundo Crusoé, dados do Grupo Brasileiro de Mieloma Múltiplo mostram que a sobrevida do paciente no serviço privado é muito maior do que no público, por falta de acessibilidade aos novos remédios. Para ele, os motivos dessa disparidade envolvem questões burocráticas e financeiras.“[A diferença] Vem da falta de atualização dos repasses do SUS. A Autorização de Procedimentos Ambulatoriais (APAC), mecanismo que repassa o valor para cobrir o protocolo mensal do tratamento, paga em torno de R$ 5 mil para tratar mieloma no SUS. No sistema privado, um pacote de tratamento moderno para a mesma finalidade vai de R$ 150 mil a R$ 200 mil por mês, uma diferença gigantesca”, comentou.
Diagnóstico – O tratamento de mieloma múltiplo, na verdade, é apenas o “meio do caminho”. Antes disso, é preciso diagnosticar a doença. No cenário nordestino, essa questão é latente, avaliou o Dr. Crusoé. “No Nordeste e no sistema público em geral, o paciente demora muito mais para chegar ao especialista hematologista. Quando chega, muitas vezes já está com fraturas ósseas ou em diálise por comprometimento renal. Tratar um paciente com esse nível de morbidade é complexo e limita a resposta do corpo”, acrescentou.
Para além disso, o hematologista pontuou que há falta de exames básicos que ajudam nos diagnósticos na rede pública. De acordo com ele, os procedimentos custam “centavos ou poucos reais” e, mesmo assim, não estão disponíveis.
“Exames básicos, como a eletroforese de proteínas, ainda não estão disponíveis em diversos hospitais públicos e universitários do país. Na rede privada, o paciente interna e faz ressonância, exames genéticos e moleculares rapidamente. No SUS, não há cobertura sequer para PET-Scan (exame avançado de imagem que avalia o metabolismo do corpo) no caso de mieloma”, ponderou.
A urgência do envelhecimento populacional – Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira está em ritmo de envelhecimento: em 2025, 16,6% da população brasileira tinha 60 anos ou mais. O mieloma atinge predominantemente pessoas idosas.
“Como a população está envelhecendo, a incidência tende a aumentar e o sistema precisa de um rearranjo urgente para viabilizar exames e terapias. Categorizar o paciente desde o início entre alto ou baixo risco e dar o tratamento adequado sai mais barato para o próprio Estado. É uma conta lógica, mas que exige vontade política para centralizar polos e atualizar protocolos”, reforçou Dr. Crusoé.
O Dr. Marinus destacou, ainda, que, antes de pensar no tratamento, este fator também está ligado ao avanço das ferramentas de diagnóstico. “No passado, muita gente perecia sem ter nenhum diagnóstico. Hoje não; conseguimos favorecer e dar o diagnóstico. Então, se a gente der o diagnóstico, a gente precisa tratar. E claro, com o envelhecimento, vai aumentar a incidência e, consequentemente, também a prevalência dos cânceres no geral”, adicionou.
De ‘doença sem cura’ à ‘cura funcional’ – Apesar dos gargalos assistenciais, as novas classes de medicamentos estão transformando o prognóstico do mieloma múltiplo no país. No último mês, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou a combinação de imunoterapias do estudo “MajesTEC-3”, da Johnson & Johnson, capaz de reduzir em 83% a progressão da doença.
O Diario esteve presente na coletiva de imprensa sobre a pesquisa clínica em São Paulo, na quinta (23), a convite da empresa. A inovação representa uma mudança profunda de paradigma para a medicina, como ressalta o professor da UPE. “Antigamente dizíamos que o mieloma não tinha cura e que o objetivo era ‘hibernar’ a doença pelo maior tempo possível. Hoje, já falamos abertamente em ‘cura funcional’. As novas imunoterapias aprofundam a resposta de tal forma que o paciente fica sem sinal da doença por tanto tempo que volta a ter vida normal e produtiva. É uma transformação emblemática na história da hematologia”, concluiu o Dr. Marinus Lima.
Diario de Pernambuco


