Governo Trump pretende enviar funcionários ao Brasil para questionar processo eleitoral, diz jornal

O governo do americano Donald Trump pretende enviar dois altos funcionários ao Brasil para questionar o processo eleitoral, publicou o jornal Washington Post neste sábado. Os representantes de Trump devem deixar os EUA rumo ao Brasil nos próximos dias. Segundo o jornal americano, a delegação do Departamento de Estado será composta de Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, subsecretário-assistente, ambos nomeados por Trump. As informações sobre a viagem da dupla foram confirmadas ao Washington Post por quatro autoridades brasileiras e americanas não identificadas.

Ao jornal, o Departamento de Estado confirmou que Barnes e Samson vão ao país, mas não deu detalhes quanto ao propósito da visita. Procurados pelo Washington Post, os dois não responderam ao jornal. Dois diplomatas brasileiros descreveram a visita dos oficiais americanos como uma “manobra” americana e prometeram impedir a entrada de Samson e Barnes no país. “É uma manobra totalmente incompatível com a democracia brasileira”, disse o diplomata, sob a condição de anonimato.

Os dois diplomatas afirmaram suspeitar que os americanos vão se encontrar com brasileiros críticos do sistema eleitoral nacional e produzir relatórios que possam ser utilizado futuramente para questionar o processo de votação. Funcionários do Departamento de Estado americano ouvidos pelo Washington Post foram críticos à viagem. “Para aqueles de nós que perderam amigos levando a democracia a outros países, é extremamente nocivo ver este secretário usar o poder americano para minar eleições confiáveis em outras nações por motivos ideológicos”, disse um deles, também sob condição de anonimato.

Dias antes, Flávio repetiu pai em fala a diplomatas – A viagem de Barnes e Samson vem à tona na mesma semana em que Flávio Bolsonaro pediu a representantes diplomáticos estrangeiros que enviem observadores internacionais ao país após levantar suspeitas sob as urnas eletrônicas com base em informações falsas desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral desde 2017. A declaração foi feita no evento “Debatendo o Brasil”, organizado pelo site The Brazilian Report e a agência Novo Selo Comunicação.

Na fala, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — que se tornou inelegível por uma reunião com embaixadores na qual teceu ataques ao sistema eleitoral do país — mencionou dados inverídicos sobre uma empresa venezuelana que aparece em documentos da CIA divulgados pela gestão Trump na semana passada. “O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e como o Brasil pode dar eleições mais seguras e transparentes”, disse Flávio Bolsonaro.

Antes, o parlamentar havia feito referência a documentos da CIA tornados públicos na semana passada, que levantam suspeitas sobre o processo eleitoral venezuelano. A papelada faz parte de um pacote de conteúdos divulgados pela Casa Branca após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aliado da família Bolsonaro, realizar um pronunciamento levantando suspeitas de interferência estrangeira nas eleições americanas de 2020.

O documento em questão, apesar de apontar que oficiais da Venezuela desenvolveram interesse e “alguma capacidade” em manipular sistemas eletrônicos de votação, não obteve confimação definitiva de que fraudes eletrônicas de grande escala foram executadas com sucesso no país. Ao discursar, Flávio citou especificamente a empresa venezuelana Smartmatic, repetindo uma informação falsa já desmentida no passado pelo TSE:

“E uma das suspeitas é que uma empresa chamada Smartmatic, de origem venezuelana, é que tenha uma programação para alteração das votações naquele país”, afirmou Flávio, acrescentando o dado equivocado: — Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana.A Smartmatic não fornece urnas eletrônicas para as eleições brasileiras.

Em 2017, quando a informação falsa começou a viralizar nas redes, o TSE publicou uma nota a desmentindo. “As urnas eletrônicas brasileiras foram projetadas por técnicos a serviço da Justiça Eleitoral e são produzidas, sob a sua direta coordenação, por empresas selecionadas por meio de processos licitatórios públicos e de ampla concorrência”, diz a nota. Novos desmentidos foram publicados pelo tribunal nos ciclos eleitorais seguintes, como em 2020 e 2022. Questionado na terça-feira, o TSE reafirmou que não há relação entre as urnas e a empresa venezuelana.

Agência O Globo

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