
Após a prisão preventiva de Daniel Kollett em março, o número de vítimas saltou de 3 para 42; relatos expõem um padrão de abusos durante consultas, exames e no ambiente de trabalho.
Uma reportagem do programa Fantástico trouxe à tona detalhes chocantes sobre as denúncias de abusos sexuais cometidos pelo cardiologista Daniel Kollett, de 55 anos. Preso preventivamente no final de março em Taquara, na Região Metropolitana de Porto Alegre, o médico era considerado um profissional respeitado e “bem-conceituado” na comunidade local antes das graves acusações virem a público.
O “Modus Operandi”: Simpatia e Isolamento
As investigações, que começaram com apenas três pacientes, ganharam uma dimensão inesperada: após a prisão, outras 39 mulheres procuraram a polícia. Segundo os investigadores, os relatos descrevem um padrão de comportamento predatório:
O médico demonstrava excessiva simpatia, alegria e utilizava elogios à aparência física das vítimas para reduzir suas defesas. “Ele abusou da postura dele de médico”, relatou uma influenciadora digital que figura entre as denunciantes.
Vulnerabilidade: A polícia destaca que muitas vítimas eram pacientes de primeira viagem e não sabiam quais procedimentos eram tecnicamente necessários, permitindo que o médico ultrapassasse limites físicos sob o pretexto de exames.
Relatos de Estupro e Abuso no Trabalho
As denúncias não se limitam a toques inadequados. Há relatos de estupro e violência sexual grave:
Consultas no escuro: Uma paciente afirmou ter sido estuprada após o médico apagar as luzes da sala sob a justificativa de realizar um exame. “Ele me agarrou por trás. Eu me sinto culpada… por que não reagi?”, desabafou.
Vítimas profissionais: Uma enfermeira relatou ter acordado durante um plantão com o médico sobre o seu corpo e com as calças abaixadas. Outra ex-funcionária afirmou que era forçada a tocar o agressor: “Ele pegava minha mão à força e colocava dentro da calça dele”.
“A palavra da vítima tem muito peso — e a de dezenas delas, ainda mais”, destacou o delegado responsável pelo caso, reforçando que crimes dessa natureza costumam ser praticados sem testemunhas.
Direitos do Paciente e Retaliação
O caso também levanta o alerta para o direito ao acompanhante. Uma idosa de 75 anos relatou que o comportamento do médico mudou drasticamente, tornando-se estritamente profissional, assim que ela passou a levar companhia às consultas.
Além dos abusos, a rede de proteção falhou em alguns momentos. Uma enfermeira que tentou denunciar o comportamento do médico à chefia afirmou ter sido ignorada e, posteriormente, demitida.
Consequências Jurídicas e Profissionais
Daniel Kollett foi indiciado por violação sexual mediante fraude, além de ser investigado por estupro e estupro de vulnerável.
CRM-RS: O Conselho Regional de Medicina abriu sindicância e o médico corre o risco de ter o registro profissional cassado.
Defesa: A defesa de Kollett nega todos os crimes e aguarda a análise de um pedido de liberdade pela Justiça.
Para as vítimas, o rompimento do silêncio é uma forma de cura coletiva. “Se alguém mais passou por isso, denuncie. Hoje eu não sou mais uma voz sozinha”, declarou uma das sobreviventes.



